domingo, dezembro 07, 2014

Meu chá de sumiço.


   Eram 4 horas da manhã e eu ainda não tinha conseguido dar um cochilo sequer durante a noite, assim como em uns dois ou três dias da semana passada. Meu coração parecia estar sendo pressionado enquanto meus pulmões bloqueavam a minha respiração e minhas mãos pareciam fracas e trêmulas. Depois de um tempo chorando por uma espécie de raiva sem nenhum motivo aparente, chegava o momento em que já não era possível colocar pra fora sabe-se-lá-o-que e eu perdia o controle do meu próprio corpo, me sentindo sozinha e sem poder recorrer a ninguém, porque se eu o fizesse, depois de dez minutos eu já não aguentaria alguém martelando na minha cabeça "Eu também passo por isso, todo mundo passa, você precisa se esforçar e isso não é motivo pra ficar assim."
   Não, você não passa, e aprenda que cada um lida com sua própria mente de um jeito singular.
   Agora são dez da manhã, o horário que eu deveria estar na escola fazendo uma prova de português, no entanto estou tentando escolher uma saia para percorrer alguns quilômetros e ir na minha primeira consulta com um psiquiatra.
   Passaram-se cerca de duas horas e finalmente chegamos.
   - O tio de fulano foi internado aqui na época que tinha aquele manicômio.
   Ótima informação para o momento atual, o que me faz lembrar do extermínio de 60 mil pessoas no antigo hospital psiquiátrico de Barbacena há 50 anos atrás.
   Na sala de espera observo várias pessoas impacientes lendo revistas inúteis e assistindo a um programa de tv inútil. Todos eles parecem possuir vidas normais, ótimo, o que indica que não estou tão louca assim.
   Depois de um questionário sobre transtornos psicológicos na família, suicídio, sensações, fracassos, estresse e automutilação o médico me dá um diagnóstico: Síndrome do pânico. Hein? Eu que sou uma leiga, mas que adorava pesquisar e ler sobre psicologia, já conhecia alguns transtornos, quase sempre acertava quais personagens os possuíam no cinema, mas nunca tinha lido sobre síndrome do pânico, só sabia que era um quadro de ansiedade.
   Descobri que tudo o que eu sentia se dava através da minha mente, minha ansiedade, meu estresse e o medo de ter medo é que faziam eu ir para o inferno e voltar em questão de quinze minutos. Agora fazia sentido eu não suportar ver certas pessoas, fazia sentido eu ter medo de que chegasse a noite e passá-la em claro, fazia sentido o meu desespero desproporcional diante de situações que a maioria das pessoas dizem não ser nada.
   Sai de lá com um tarja preta, maravilha, não vou me desesperar.
   No dia seguinte tentei fazer uma prova de matemática na escola, mas fiquei tão nervosa ao saber de tudo isso que não consegui calcular nem o resultado de 2+2. Pedi a coordenadora pra ir pra minha casa, não expliquei muito, mas só pelo timbre da minha voz era perceptível o quanto eu estava nervosa. Decidi tirar férias por conta própria, tive a sorte de já ter passado, não consegui me concentrar em uma frase sequer dos meus professores durante esse bimestre. Não consegui dormir. Não consegui comer. Não consegui ter uma relação estável com ninguém. Não consegui sair da minha casa. Também não consegui dar continuidade ao blog.
   Você pode não me entender, mas não exijo que o faça.
   Eu sinto o dobro que você, tentei controlar isso por muito tempo, e agora sei que alguns sentimentos ruins não superados periodicamente voltam a se manifestar.
   Eu tenho medo em dobro, a ponto de me machucar.
   Eu tenho raiva em dobro, a ponto de te machucar também.
   Eu tive que me concentrar em dobro pra escrever isso, porque o barulho (mesmo que baixo) da tv está me irritando nesse exato momento.
   Eu tenho vontade de  fugir em dobro, mas não há como fugir de si mesmo.
   Em dobro.
   Esse foi o meu terrível chá de sumiço.

Comentários
4 Comentários

4 comentários:

  1. Não sinto o que.vc sente. É impossivel sentir, mas convivo com alguem que sente. Ele esta melhor sabe?! Dois tarjas pretas. Uma tentativa constante de não encher seu saco, mas isso quase acabou com a gente. Eu, que sempre fui a fraca, tive que me fingir de fotte para ajuda-lo. E nisso, eu quase fui também. Espero do fundo do meu coração que vc melhore. Que tenha pessoas que se importem con vc e que vc consiga deixar ser ajudada.

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  2. Acredita que eu já tive as mesmas sensações que você? Só que o que predominava é que eu tive muito mas muito medo. Precisava ir pro meu curso de modelo, pois já estava no final, iamos fazer a banca e nos apresentar pros jurados,eu estava quase me formando, mas quem disse que eu conseguia sair de casa sozinha? Só de pensar em pegar ônibus sozinha já me dava 10 tipos de calafrio, eu que sempre fui tão atirada pras coisas, estava presa num mundo de medo que era só meu, sim, porque eu não compartilhava ele com ninguém! Isso que é o pior. Escrevia no diário dos meus medos, entrava na sala de aula e me reunia em grupinho pra fofocar, mas no meio da conversa eu saia correndo com aquele aperto no peito e não aguentava mais ver ou ouvir pessoas, me trancava no banheiro da escola e começava a chorar, tremia de medo. Mas um medo que eu não vinha de ninguém a não ser de mim. Quando minha mãe pedia pra comprar pão, meu Deus, meu mundo desmoronava, eu tinha a plena certeza que ia cair dura no chão. Foi difícil, muito difícil. Não fui ao médico como você, porque eu sempre acreditei que Deus não queria me ver naquela situação e logo as coisas iam fluir. Eu orei orei muito, chorei, implorei e indaguei Deus porque que aquilo não passava? Mas ao invés de chorar, eu agradecia agradecia e louvei por muito tempo, porque sempre soube que tudo foi uma provação pra minha vida e me tornaria mais forte mais pra frente. Eu penso se eu tivesse desistido e não aceitado o conselho de quem me queria bem, AONDE eu ia parar hoje? Talvez nem tivesse aqui. Mas graças a Deus o tempo cura tudo! E você precisa se distrair com coisas boas, FALAR de coisas boas, porque as palavras tem muito poder, a língua tem o poder de amaldiçoar e abençoar. Então, preste atenção nas suas palavras, antes de morrer de chorar, tente só tente morrer de rir, mas não precisa ser tudo correndo com pressa, vai voltando aos poucos, saindo com apenas 1 amiga pra não ter pânico. Tenho a total certeza que isso vai passar. Você vai crescer e se tornar uma mulher linda e forte. BASTA você querer e se dedicar nisso. Trabalhar nisso, eu consegui e você também consegue.

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  3. Hey gostei dos pensamentos, não posso dizer que me sinto igual, mas sei que tudo uma hora melhora.

    http://gotasdecaffe.blogspot.com.br/

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  4. Com 15 anos fui diagnosticada com Síndrome do Pânico, mas resolvi não tomar o tarja preta que o médico me receitou. Até descobrir o que eu tinha, eu sofria com o coração acelerado e medo de ficar em lugares com muitas pessoas... Achava que ia morrer de parada cardíaca a qualquer minuto. É horrível. E mais horrível ainda são as pessoas dizendo, com desdém: "é só você não querer e não vai sentir essas coisas", como se a gente quisesse sofrer. Fui tentando gastar minhas energias em várias outras coisas para não dar tempo para o medo chegar... Algumas vezes não funcionava, mas fui melhorando bastante com o tempo. De vez em quando ainda tenho algumas crises de medo (como essa noite, por exemplo; acordei com o meu coração super acelerado, achando que ia ter um infarto)... Só que já consigo controlar bastante o meu corpo. Quando a crise começar a aparecer, tente se concentrar em algo que lhe dê forças... Você sente isso porque tem Síndrome do Pânico - é fato - e aí você pode se lembrar de que, assim como uma dor de cabeça que vem de repente, essa sensação ruim vai passar...

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