terça-feira, novembro 26, 2013

Um Dia a Gente Se Encontra


Paft. Um tapa teria doído menos do que essa notícia.
- Desculpa se você ainda acredita nele, mas é verdade! Ele estava lá quatro e meia da manhã, enquanto você estava em casa, pensando que ele estava fazendo o mesmo. Ele foi e eu não serei a única a te afirmar.
- Obrigada, Clara. Eu não continuarei o relacionamento desse jeito. Uma vez a gente ainda perdoa, duas vezes é ele pensar que sou idiota.
- Sinto muito, Bi... Eu queria que desse certo, você não merece infelicidade!
- Obrigada de novo. Vou procurá-lo para conversarmos.  Até mais, eu te ligo!
Relaxe, Gabriela... Pare de tremer e de chorar. Droga, como eu ligo tremendo desse jeito? Finalmente, consegui.  Quando o telefone começou a chamar, eu segurei o choro. Tentei ao menos.
- Oi, amorzinho.
- Falso. Pode passar aqui em casa quando estiver descendo para o trabalho?
- Posso. Falso?
Desliguei. Fui mal educada, mas ainda está longe do que ele fez comigo. Meu namorado – que daqui a pouco será ex – me trocou por uma noite de farra. Duas que eu sei, e se tiver mais? Passou mais de dois anos comigo para isso. Bem que a minha mãe avisou que não se pode confiar em ninguém além de si mesmo. Por que filhos sempre são cabeça oca, se acham dono do próprio nariz? Queria minha mãe aqui nesse momento.
Bom, ele deve demorar uns quinze minutos para chegar aqui, dá para tomar um calmante. Mas não tenho como pegar se não paro de tremer. Quero um banho gelado e depois ficar na cama até 2030, posso? Deito-me na cama. Levanto. Estou desesperada, pensando em como o nosso namoro chegou a esse ponto. Vou até o banheiro e lavo o rosto, mesmo que de nada adianta. Vou desabar assim que vê-lo, apesar de que eu quero parecer forte.  Meu telefone está tocando e é a nossa música... Mas ainda não é quem deveria ser.
- Alô?
- Gabriela, já almoçou? Se você disser que ainda está deitada ou que o João está aí em casa, as coisas não vão ficar muito boas para o seu lado.
- Mãe, o João não está aqui, mas daqui uns minutos vou atendê-lo na porta. Vamos terminar.
Fiquei esperando a resposta. Minha mãe sofreu um ataque? Normalmente, essas coisas acontecem quando eu falo que quero começar a namorar, não terminar.
- Mãe? Aconteceu alguma coisa?
- Terminar, Bi... Por quê? Se for minha culpa, desculpa filha. Eu implico porque você é minha princesinha, mas até que eu gosto do João. Sempre te deu assistência, te respeitou e te faz feliz.
- Mãe, você só fica me chamando de “Bi”, um diminutivo já do diminuído quando eu estou doente ou você sente pena de mim. Não, a culpa não é sua. Depois eu te explico e já almocei sim. Beijos, mãe.
- Amo você, Gabi.
- Também te amo muito, Ma.
Disse a última frase choramingando. A minha mãe, sim, nunca diria isso em vão e nunca me abandonaria. 
Decido trocar de roupa e ir esperar o João no térreo. Hoje, minha mãe permitiria que ele viesse aqui em cima enquanto ela está fora, mas não há nenhuma necessidade de subir. Quero ser o mais breve possível. Se ficar mais, eu acabo mudando o rumo da conversa e tudo se distorce. Respiro fundo e vou descer. Antes mesmo de abrir a porta o interfone toca.  Ainda tremendo, coloco o fone no ouvido.
- Seu xodozinho acabou de chegar, princesa. Posso subir?
- Não... Eu mesma vou descer.
E desliguei. Olhei para o relógio antes de sair e vi que ainda era cedo, ele esperava mesmo que nós ficássemos juntos no tempo livre do feriado. Mas agora era tarde. A noite de farra dele tinha que ter valido a pena, porque tudo ia despencar agora. Não sei qual sentimento predominava: raiva, desapontamento ou tristeza. Desci pelas escadas mesmo, quase caindo com as minhas pernas bambas.
- Oi, Bi. O Jonas me deixou entrar, como sempre.
Quando ele veio me cumprimentar com um abraço, eu aceitei sem retribuir, quando a minha vontade era socá-lo.  Quando ele, enfim, veio me dar um beijo, desviei.
- Aconteceu alguma coisa, amorzinho?
- João, eu quero terminar. Você é muito falso, poxa! Prometeu que nunca me trocaria por nada e acabou me trocando pela primeira oportunidade.
- Gabriela, eu já sei do que você está falando. Eu queria te contar, juro que queria, mas eu não tive coragem. Eu não queria ouvir da sua boca o que eu acabei de ouvir agora. Sabe, meus irmãos abriram várias cervejas lá em casa depois que eu cheguei da sua e bebi com eles enquanto conversava com você por mensagens. Eu conversei com você até cinco horas da manhã, lembra? Eu não fiz nada de errado, só saí com eles.
- E isso não é errado, João? Você estava conversando comigo, custava avisar?
- Bi, por favor, entenda... – Ele procurou pelo meu rosto e dei um passo para trás.
- João, espero que você vá embora. Agora não há mais tempo para conversar. Quando você teve tempo não quis falar nada comigo, agora não adianta mais. Espero que você consiga alguém dobre, triplique ou até multiplique o que você fez comigo! Agora eu consigo ver que você nunca gostou de mim.
- Bi, para. Você sabe que eu te amo e não te trocaria por nada.
- Já trocou por uma noite de farra. A saída é por ali, João.
- Ainda não acabou, Gabriela. Escreve o que eu estou te falando.
- Vou escrever na minha lista negra.
Ele virou para ir embora, com um rostinho de cachorrinho abandonado. Depois de três passos, ele voltou e roubou um beijo.

- Não acabou, Gabi. 

"Então vamos viver e um dia a gente se encontra." Charlie Brown Jr.


Comentários
14 Comentários

14 comentários:

  1. Ficou perfeito Bia!! Amo esses diálogos hahaha com esse final que todo mundo sempre imagina!! <3

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    1. Obrigada, Fran!
      A parte boa é que sempre podemos imaginar e criar um final ou até mesmo um começo diferente, né? ♥

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  2. Que texto lindo!! <3
    Bom, no final tudo se resolve, essa é a ordem!

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    1. Obrigada, Giulia! Uma hora tem que ser resolvido, mesmo que não seja do jeito que eu costumei relatar. ♥

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  3. Muito bom o seu texto, no final o amor sempre vence. Você escreve muito bem.
    To seguindo o seu blog.

    http://momentocrivelli.blogspot.com.br/

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  4. Adoro diálogos, acho tão criativo quem consegue criar um <3
    Amei!
    xoxo
    http://www.universovanguarda.com/

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    1. Quando a inspiração bate é mais fácil, Paula. Muito obrigada ♥

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  5. Esse texto é daqueles que a gente fica torcendo pra que no final termine tudo bem. ♥ Você escreve diálogos de uma forma que eu não consigo fazer. Seu texto é muito bom! :D

    http://sendoempapel.blogspot.com.br/

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    1. Tomara que termine mesmo tudo bem! Muito obrigada ♥

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  6. Esse seu texto é muito bonito, curti.

    http://momentocrivelli.blogspot.com.br/

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  7. Nahim...adoreii! Que saudade desse blog aqui e das postagens.
    Te desejo um ótimo final de semana.
    Beijos!
    Paloma Viricio-Jornalismo na Alma.

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  8. Adorei! Estava torcendo por um final feliz. Mas geralmente acontecem em filmes e não nos nossos blog 😢

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